28 junho, 2007

│voa dor│



há um vapor que emana dos pequenos movimentos do mundo, da luz do riso e do sorriso, do gesto lento, das inflexões da voz. a música é íntima como um vapor, sem se saber como o outro se ouve dentro de si.
adaptado de fátima pombo.

23 junho, 2007

│interrupção involuntária da altivez│





a asa é uma grande mão deformada, com os dedos pendentes, uma mão partida e inerte.

anjos plenos da intenção de voo, corpos de cor que erguem com eles a tela. parecem sempre prontos a sair. e depois vêem as palavras como machetes, cutelos, foices, que lhes quebram o desejo. e ficam anjos feridos. tal como perdizes, com um chumbo na asa, arrastam-se aos tropeços, tentando o equilíbrio e recaindo na ferida.

os anjos vieram morrer todos a esta casa, mas não os anjos alemães, que eram louros, altos e fodiam uns com os outros a limpa foda ariana. uma madrugada, desceu para eles outro anjo mais implacável, levou-os nus para o jardim e metralhou-os contra um fundo plácido de montanhas: o eco dos tiros devolvia ao amanhecer o silêncio pastoril.

rui nunes.

18 junho, 2007

│reset│



porque antes do 1 , tem de existir um 0.

que a enumeração seja só o que vejo,
dois olhos lançados devagar abertos fechados abertos fechados fechados fechados
recolhem o que para o verso interessa.

à beira do berço,
a beleza textualmente transmíssivel do sistema solar lar lar só lar só só.
inseparável o que se aprende de quem ensinou.