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23 junho, 2007

│interrupção involuntária da altivez│





a asa é uma grande mão deformada, com os dedos pendentes, uma mão partida e inerte.

anjos plenos da intenção de voo, corpos de cor que erguem com eles a tela. parecem sempre prontos a sair. e depois vêem as palavras como machetes, cutelos, foices, que lhes quebram o desejo. e ficam anjos feridos. tal como perdizes, com um chumbo na asa, arrastam-se aos tropeços, tentando o equilíbrio e recaindo na ferida.

os anjos vieram morrer todos a esta casa, mas não os anjos alemães, que eram louros, altos e fodiam uns com os outros a limpa foda ariana. uma madrugada, desceu para eles outro anjo mais implacável, levou-os nus para o jardim e metralhou-os contra um fundo plácido de montanhas: o eco dos tiros devolvia ao amanhecer o silêncio pastoril.

rui nunes.

20 janeiro, 2007

│vez de onda│


«eu vinha para a vida, e deram-me dias»
vivos com os seus lugares e espaço.
ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe os sabores de ondas, de orlas.
outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas. pedras
densas que me encheram o ventre
e me criaram similar à terra.
no mar tive cristais quebrados, jóias;
na terra, tão nítida poeira branca
que fundi as formas das flores visíveis.

e hoje é este olhar profundo,
deriva das imagens pelo mundo."

fiama hasse pais brandão dorme em leito de fogo.

02 dezembro, 2006

│devagar│

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estou vivo e escrevo sol
eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
estou vivo e escrevo sol

se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

a vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde.




ramos rosa.
one night and it's gone, by colleen.

14 novembro, 2006

│al.berto al.quimia│



scott fitzgerald terá dito uma vez que não se podia escrever a biografia de um escritor porque é muita gente. al berto era um caso desses, porque ele era mais do que uma pessoa.

e saio da fnac com um novelo de alegria a sufocar-me a garganta.

28 setembro, 2006

│mão de fogo│



não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando
as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.

e então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo

não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço

e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfregados meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

herberto helder

20 julho, 2006

│umbria│



«largou o telefone e, meio caído da cadeira, vomitou convulsivamente. nému amparou-lhe a cabeça, ajudando-o a recompor-se. obrigou-o a beber água, sentou-se a a seu lado e, enfiando-se nos seus braços, chorou em silêncio.»

al berto

│the end│

perdeste o nome como eu há muito perdera a infância. trying to stay awake noite turva pelo tamanho do medo and remember my name tentando luc...