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07 julho, 2007

│lentíssimo│



à melancolia adicionas um pequeno trago de vento adolescente, ensinas à beira-mar ofícios de afogado em marítima intransigência,
até que um anjo frio vem fechar-te as pálpebras, docemente, com seus dedos de sal marinho.

04 março, 2007

│hinterland│






# fugir do ruído # fugir do silêncio #

ir.
pela página.

: à volta :
chão, céu, cor. aqui. mar.

: azul :
afaga afaga afaga afaga afaga afaga apaga afaga apaga afaga apaga a dor.

apaga.

por Alguém.

03 março, 2007

│outras audições│



só o sangue dói como um relâmpago.

para ouvir com o queixo pousado nos joelhos, de olhos fechados para melhor abrir o céu, sentindo dentro o traço de fogo de uma mão silenciosa que se fecha. povoar milimétrica e cirurgicamente todos os espaços em branco ardente.

28 fevereiro, 2007

│endoderme│






sendo em definitivo pedra. rochosa.

se puder escolher, tentarei ser um grande rochedo no meio do mar, para continuar a recolher a tristeza dos que se vêm sentar a olhar a sua vastidão, por horas esquecidas. os dias e as noites em melancólica sucessão, sol levantando e caindo ao redor, com uma lentidão informulável, e talvez pudesse interrogar a um velho marinheiro que rota escolhem as longínquas aves salinas. talvez pudesse sonhar, com a exactidão de um velho marinheiro, essa inacessível rota do mar.

sendo em definitivo poderosamente só. se puder escolher.

31 dezembro, 2006

│cronotomia│



dezembro : dezembro
quanto das tuas horas se adensou junto aos sentidos
sem rigor tão pouco mudamente.

dezembro : dezembro
quanto das tuas chuvas não secaram marés
que a retina larga
entre a luz e a sombra.

dezembro : dezembro
quanto do teu frio abriu fendas memória adiante
mente dérmica arrepiando imagens.

dezembro : dezembro
quanto das tuas esperas afastou com lenta agonia
a cortina do real imaginado.

dezembro : dezembro
quanto das tuas ruas me não encontro
me te perco não tendo contudo chegado.

voa, pássaro incriado, voa
cerce ao mar-dezembro
armazenando vento
como cigarra muda imaginando a formiga
em invernias permanentes.



sleeping inside, by lilium.

17 dezembro, 2006

│sonoplastia│



nas casas de sol, abrigo simples, silencioso anoitecer,
flor ou folha, espessura branca do crepúsculo.
adormecer um sono verde
para escutar a perfeição do esquecimento.
para renascer em denso azul sobre as pálpebras.
para que tudo caminhe.

boa noite.

01 dezembro, 2006

│ventos de morder│

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depois da bonança veio a tempestade.

cicatrizo pela cidade cidade cinzenta, respiro com insistência os sons que trago nos bolsos, procuro a atmosfera íntima do centro da vida, trafico as ruas serpentinas e estreitas, com cheiro a esperma seco e a urina velha, a cidade acolhe o vómito que não aguenta demorar no espírito. a procissão urbana seduz-me, começa a arder, caminho dentro das chamas.

cada rosto passa leve, entre todos passo pesada e ninguém vê, cegam-me os olhos, não vejo por onde ando, só sei que ando, deve ser para algum sítio, mas não sei se quero voltar, entre muros que se cerram, perto da ruína, vou cair, espero que ninguém repare.

22 novembro, 2006

│quatro cantos│



porque há dias em que basta um ápice de realidade, de pessoas no metro, da maquinaria do quotidiano, até mesmo do sucesso da viagem do homem à lua, da amálgama violenta do mundo, da vida dos milhões de pessoas que se mexem no mundo, para dissolver o nosso microplaneta apocalíptico íntimo que erroneamente julgamos ser tudo o que existe.

e há outros que não.




golden cities, by lisa germano.

11 novembro, 2006

│involuntários│



paisagens desérticas que entorpecem as vidraças dos corpos. escuto a cidade nos búzios urbanos, no interior de ruelas de urina e sangue, graffitis que testemunham a venda dos corpos vagabundos, animais endurecidos nas mãos, cheiros amargos, paisagens privadas de haxixe, pobreza e velhice até ao vómito nesta cidade que enxergo mal, marulhando vida e morte em ofegantes cocktails de luz. mordem a noite até não arder mais nada.

juntos tocamos longe devagar pétalas, madeira queimada ou lua incandescente do vulto entornado sobre o crepúsculo.

deixo a noite apagar-me descansadamente.

09 novembro, 2006

│preciosas levadas de simplicidade│



pelos corredores da manhã ainda nocturna, onde as casas recolhidas ainda vogam na ignorante quietação do sono.
modo inabitual de aceder ao fim da noite, com a intensidade de um escarpado frente ao mar.

entro num café aberto e vazio com dificuldade decrescente, tenho duas horas de espera para acordar o talento da vida real. iniciam-se os retratos.

uma senhora gorda e rosada entra como se em casa entrasse, e com um desajeito que pertence a quem muito já viveu, diz enquanto se dirige trôpega para a mesa:
quando for eu, duas carcaças! encontra um jornal em cima da mesa e exclama: quem deu? foi o alfredo? alguém responde. sensações de percorrer grandes distâncias sem me mover. folheia o jornal disparando ocasionais comentários e pergunta de voz robusta: está doente o manel? não veio ontem! alguém lhe diz: não, vem mais tarde. pessoas entrando e sentando na mesa da senhora, como num confessionário de quotidianos para arrumar. um senhor parecendo um penhasco distraído queixa-se de dor de dentes, pormenorizadamente. olha, a gina também está desesperada da boca e não tem nada nos dentes, é gengiva! acalora-se um diálogo colectivo sobre enfermidades orais e respectivas terapêuticas inventadas, ao qual assisto fascinada capaz da maior imagem.

ouve-se do balcão:
ai o carago, já estou aqui à espera há mais de uma hora! a senhora rosada replica: não inventes, também para inventar estás aí tu! e ouve: oh, deixe-me ser feliz! sorrisos imperceptíveis em percalços pelo ar.

atmosfera íntima de uma novela doméstica, rostos rosados em explosão iminente contendo a custo a ferocidade da natureza. sem saber, recebe a minha reverência quando lhe servem o galão e as duas carcaças e diz, com inexprimível convicção de aço:
ora vamos lá começar o dia! e dá uma valente trinca no pão.

consigo ainda reter a vontade maior de acordar em mim uma semelhante habituação para melhor sustentar algo daquilo que até hoje não sei.

01 novembro, 2006

│exposition florale│



falsa anatomia da necessidade de fugir plantada.
migração de aves que apaga as marcas importadas da imaginação morta.


miles away, by lilium.

22 outubro, 2006

│pelicular│







chá meticulosamente escolhido, torradas com manteiga em excesso, neste chalé que elegi para deixar de estilhaçar, para entender o mundo. a vida regressa tímida, silencia os vulcões mais recentes e permito-me sarar debaixo desta luz amarelecida que chove no fim de tarde.

desconheço, invento, crio, sou menos, abro, espero, acabo, recomeço, roubo, troco coincidências por mãos e sulcos.

09 setembro, 2006

│noitarder│



hoje amanhã
não serei outra coisa, a fria, terra cristalina onde ficaram os teus passos
móveis, caminhando para a orla das árvores,
como um silêncio, tecido de luz, abrindo a névoa.

só pouco a pouco afasto das palavras
o som que importa
pobre de quem ouviu e não entende
pobre de quem entendeu e já não ouve.

antónio franco alexandre



11 agosto, 2006

│câmara escura│



passo horas aqui, neste cubículo umbroso e húmido. finjo ver através do corpo que é a alma e do mistério maior que é o tempo. tenho tempo para conjecturar. tempo entre clientes.

tenho tempo nas pausas que fazem. longas pausas, monólogos maiores. visitam-me para falar. sou o fundo do poço onde segredam, inclinados. as pessoas falam, emendam-se ao falar, consertam-se. revelam-se prontas para a luz. saem para a luz como se nunca voltassem à sombra.

eu próprio dou longos passeios junto ao mar, à flor da luz... tenho pena de não saber nomear as aves. aquele pássaro de sombra. ave de arribação entre a culpa e o desejo, em que poço bebes? em que poço bebo eu?

estou aqui, sempre. é difícil lembrar o mar, aves, estrelas, e outros exageros. chegam-me antes as histórias de quem as visita. aparecem-me do negro, como em negativo.
continue, por favor. prometo ouvi-lo. prometo não me esquecer de si.

alguns tentam aprender a odiar. à beira de um abismo, de um poço em que cada fiada de pedra é um ano de vida. por vezes sabem coisas em que eu nunca tocarei. gritam. rezam. e sem haver deus. e fazem silêncios enormes que me doem no estômago. há coisas que não cabem em nós. é preciso aguentar, esperar que passe. e tudo passa, não é verdade?

o meu criador é a Vergonha Enorme, aquela mão que ilude. no meu teatro anatómico amontoam-se frascos de vidro. órgãos que não serviram, partes, promessas boiando em formol. assim se encontra o coração de um tímido.

escondo-me da minha própria história, porventura.

duvido muito. recomeço sempre. também é essa a minha história. raramente sinto a presença. tenho a confiança mas duvido. suspeito que a ordem do mundo seja perfeitamente insondável. neutra.

tenho dias. imagino o que seria ter grandes conselhos para dar. instruções de voo. como planar sobre a cidade. ultrapassar os cabos eléctricos. cuidados a ter com o fogo das estrelas.

sermos só mais um ponto no céu da noite.


francisco sousa lobo

10 agosto, 2006

│coração de arame│


(desenho de josé carlos fernandes)

seria, de novo, chuva, argila, repouso do ser no ser,
o vento que me abre os braços
e me mostra a folhagem do céu.

02 agosto, 2006

│sospensione│




estou crescendo numa pedra
com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio
o que amo não sei.
amo. amo em total abandono
algo ainda não é flor em mim.
sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

ramos rosa
the air i breath, remixed by kid loco.

25 julho, 2006

│silhouette│



quem me dera conseguir não pensar em nada,
deambular pela vida sem desejar,
sem projectar fosse o que fosse,
nem querer possuir mais
que a humilde condição de continuar vivo.

talvez sentar-me junto ao mar
e olhar as águas incendiadas,
milhares de aves sobrevoando o cais.
o frio entra pela janela, acorda-me.

não sei o que hei-de fazer com estas visões.

al berto

│the end│

perdeste o nome como eu há muito perdera a infância. trying to stay awake noite turva pelo tamanho do medo and remember my name tentando luc...