09 novembro, 2006

│preciosas levadas de simplicidade│



pelos corredores da manhã ainda nocturna, onde as casas recolhidas ainda vogam na ignorante quietação do sono.
modo inabitual de aceder ao fim da noite, com a intensidade de um escarpado frente ao mar.

entro num café aberto e vazio com dificuldade decrescente, tenho duas horas de espera para acordar o talento da vida real. iniciam-se os retratos.

uma senhora gorda e rosada entra como se em casa entrasse, e com um desajeito que pertence a quem muito já viveu, diz enquanto se dirige trôpega para a mesa:
quando for eu, duas carcaças! encontra um jornal em cima da mesa e exclama: quem deu? foi o alfredo? alguém responde. sensações de percorrer grandes distâncias sem me mover. folheia o jornal disparando ocasionais comentários e pergunta de voz robusta: está doente o manel? não veio ontem! alguém lhe diz: não, vem mais tarde. pessoas entrando e sentando na mesa da senhora, como num confessionário de quotidianos para arrumar. um senhor parecendo um penhasco distraído queixa-se de dor de dentes, pormenorizadamente. olha, a gina também está desesperada da boca e não tem nada nos dentes, é gengiva! acalora-se um diálogo colectivo sobre enfermidades orais e respectivas terapêuticas inventadas, ao qual assisto fascinada capaz da maior imagem.

ouve-se do balcão:
ai o carago, já estou aqui à espera há mais de uma hora! a senhora rosada replica: não inventes, também para inventar estás aí tu! e ouve: oh, deixe-me ser feliz! sorrisos imperceptíveis em percalços pelo ar.

atmosfera íntima de uma novela doméstica, rostos rosados em explosão iminente contendo a custo a ferocidade da natureza. sem saber, recebe a minha reverência quando lhe servem o galão e as duas carcaças e diz, com inexprimível convicção de aço:
ora vamos lá começar o dia! e dá uma valente trinca no pão.

consigo ainda reter a vontade maior de acordar em mim uma semelhante habituação para melhor sustentar algo daquilo que até hoje não sei.

7 comentários:

Agripina Roxo disse...

descobrir um pormenor do pinguim a preto e branco não deixa de ser engraçado :)

gosto dos teus retratos ;)

(in)tacto disse...

:) preciosa mão que arde sobre o papel.

imo disse...

bem-vinda, agripina :)
obrigada.

imo disse...

(in)side (in)between.
:)

rosa disse...

gosto muito de observar as pessoas. por vezes ouvir uma conversa na mesa do lado, num restaurante, é a melhor companhia. ainda hoje fui a n.y. e andei nas ruas da city.

imo disse...

al berto dizia que viajar cura a melancolia. acho que, se não cura, ajuda. nem que seja pelo aparentemente inofensivo exercício de troca de melancolias.
isto para te dizer que espero que tenhas feito boa viagem.
:)

Luis disse...

sorrisos imperceptivelmente felizes

pelo chão

│the end│

perdeste o nome como eu há muito perdera a infância. trying to stay awake noite turva pelo tamanho do medo and remember my name tentando lu...