28 setembro, 2006

│mão de fogo│



não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando
as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.

e então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo

não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço

e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfregados meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

herberto helder

1 comentários:

Hugo Milhanas Machado disse...

(repara, meu amor: eis-te aqui, acontecendo-me na voz)

HMM